Bulerías: o palo mais festivo e livre do flamenco

Cuadro flamenco por bulerías con baile, guitarras y palmas en el Tablao Flamenco 1911.

Se já viste flamenco ao vivo e a certa altura todo o cuadro se levantou —entre palmas, risos e remates— para que cada artista saísse a marcar uns passos, aquilo que viste eram bulerías. É o palo da festa. O que acende a sala justamente quando a noite parecia apagar-se.

Vamos ver o que são, de onde vêm e porque chegam quase sempre ao final.

O que são as bulerías

As bulerías são o palo mais alegre e festivo do flamenco. Rápido, vivo, atrevido às vezes. E, sobretudo, o mais livre: aqui cabem a brincadeira, o desvio inesperado e a faísca do momento. Não há duas bulerías iguais, porque grande parte da sua graça está na improvisação.

Cante, guitarra e dança misturam-se sem ordem fixa. Um começa, outro responde, alguém se levanta para dançar uma “patá” e volta a sentar-se. É o flamenco na sua versão mais social, a do convívio e da folia.

A origem das bulerías (da soleá a Jerez)

As bulerías são um palo jovem. Nascem no final do século XIX, em Jerez de la Frontera, e não do nada: surgem como o remate acelerado da soleá. Os cantaores fechavam a soleá subindo o ritmo, largando a solenidade, e daquele final desenfreado acabou por sair um palo com vida própria.

Do nome não há uma única versão. A maioria aponta duas pistas: “burla”, por esse caráter brincalhão e um tanto trocista, e “bulla” (barulho), pela algazarra da festa. Ambas lhe assentam.

Com o tempo, as bulerías contagiaram outros palos festivos —algo parecido ao que acontece com a rumba flamenca— e são hoje uma das marcas do flamenco.

O compás da bulería

Aqui está o cerne da questão. As bulerías movem-se num ciclo de doze tempos, a mesma família métrica que a soleá ou as alegrías. A diferença é a velocidade e a síncope: os acentos caem onde não os esperas, e isso dá-lhe aquele toque nervoso e dançável.

É, para muitos, o compás mais difícil de “apanhar”. Podes ter bom ouvido e ainda assim perder-te. Por isso, quando vês um cuadro inteiro a levar o compás com as palmas sem se desmanchar, estás a ver anos de ofício. As palmas são, aliás, mais um instrumento: marcam, respondem e empurram quem dança.

Bulerías de Jerez

Se as bulerías têm uma capital, é Jerez. Os bairros de Santiago e San Miguel levam-nas no sangue, transmitidas de pais para filhos em famílias flamencas inteiras.

As bulerías de Jerez têm um selo reconhecível: um compás rápido, curtinho, muito para dentro, com um swing particular difícil de imitar noutro lado. Não é por acaso que se fala delas como uma escola em si mesma. Cádis, Utrera ou Lebrija também têm o seu, mas Jerez é a referência.

A guitarra na bulería

A guitarra na bulería não se limita a acompanhar: pica, provoca, empurra. O toque é rápido e percussivo, com rasgueos secos e falsetas curtas que entram e saem para dialogar com o cante e a dança.

É um dos momentos em que o guitarrista mais brilha, porque tem de sustentar aquele compás endiabrado e, ao mesmo tempo, deixar espaço para os outros respirarem. Quando a coisa funciona, guitarra, palmas e pés soam como uma só máquina de ritmo.

As bulerías no fecho do espetáculo

Bailaor con los brazos en alto en el fin de fiesta por bulerías del Tablao Flamenco 1911.

O remate por bulerías, com o cuadro a jalear, no Tablao Flamenco 1911.

Há uma razão para chegarem quase sempre ao final. As bulerías são o fim de festa: o momento em que o cuadro se solta, ri, e cada artista sai a rematar com o seu selo. Cai a quarta parede. O que antes era solene, agora é celebração.

Vê-las gravadas está bem. Vivê-las ao vivo é outra coisa: notas como muda o ar da sala, como o público começa a levar as palmas quase sem dar por isso. No Tablao Flamenco 1911 essa descarga final acontece todas as noites. Se quiseres senti-la de perto, dá uma vista de olhos aos nossos espetáculos de flamenco em Madrid e deixa-te levar pelo palo mais festivo do flamenco.

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