As castanholas no flamenco: tradição, mito e realidade no palco
Esqueça por um momento os postais para turistas. Se fechar os olhos e pensar em Espanha, provavelmente visualizará um vestido com folhos e um par de castanholas. No entanto, a verdade da “arte jondo” é muito mais profunda do que esse mito. Para compreender o verdadeiro uso das castanholas no flamenco, é necessário separar o folclore comercial da realidade histórica, e entender exatamente quando, como e por que este instrumento intervém num tablao.
Castanholas flamencas: por que fazem parte do imaginário popular
Na publicidade e na história, os factos convencem mais do que as opiniões. E os dados sobre a história das castanholas são surpreendentes: a sua origem não é andaluza. Foram inventadas pelos fenícios há mais de três mil anos. Conhecidas na antiguidade como crótalos, eram esculpidas em marfim ou madeira comum e acompanhavam ritos por todo o Mediterrâneo.
Com os séculos, os artesãos espanhóis aperfeiçoaram a sua acústica utilizando madeiras nobres e duras (ébano, granadilho ou pau-santo), elevando-as ao instrumento de castanholas clássico e flamenco que conhecemos hoje.
No século XX, figuras lendárias como La Argentinita ou Carmen Amaya levaram-nas aos palcos de todo o mundo. Assim nasceu uma associação visual inquebrável que o cinema e o teatro gravaram para sempre no imaginário coletivo internacional.
As castanholas são usadas no flamenco tradicional?
Aqui está a verdade que surpreende a maioria dos espectadores: no flamenco mais puro e ortodoxo, o uso de castanholas é a exceção, não a regra.
Para entender o porquê, basta observar as diferenças das castanholas no flamenco e na dança espanhola. Na Dança Clássica Espanhola e na Escuela Bolera, este instrumento é o protagonista absoluto e académico. Pelo contrário, com as castanholas usadas no baile flamenco puro (quando se interpreta uma soleá profunda, um taranto ou uma seguiriya) o artista precisa de ter as mãos livres.
A essência do flamenco é transmitir a emoção através do movimento orgânico dos dedos e dos pulsos; amarrar as mãos com madeira limitaria a expressão corporal que dá alma à dança.
Então, como se usam as castanholas nesta arte? São reservadas quase exclusivamente para palos festivos, de “ida y vuelta” ou folclóricos, como as sevillanas, os fandangos de Huelva ou a guajira. A sua execução é uma obra de engenharia rítmica: a castanhola aguda (a “fêmea”) é colocada na mão direita para ditar o repique, enquanto a grave (o “macho”) vai na esquerda para marcar o compasso base.
Se as castanholas não são o motor do flamenco profundo, o que marca o ritmo? O próprio ser humano. Na arte jondo, o bailaor torna-se o seu próprio instrumento de percussão.
Através do zapateado (com as suas ferozes variações de planta, calcanhar e ponta) e da arte das palmas (surdas ou claras), os artistas constroem uma arquitetura sonora impecável. Se deseja entender a matemática que sustenta o canto e a dança autênticos, convidamo-lo a descobrir como funciona o compasso e ritmo flamenco. É aí que reside a verdadeira autoridade do tablao.
Castanholas e flamenco: significado cultural e perceção
As castanholas são, indiscutivelmente, um tesouro cultural e um amuleto histórico em Espanha. Mas no ecossistema sagrado de um tablao centenário, a sua aparição é um recurso medido, não um adorno constante. O espetador inteligente não procura um ruído ininterrupto de madeira, mas a conversa sincera entre uma guitarra, uma voz quebrada e o ritmo dos pés.
Não se contente com a superfície dos clichés. Convidamo-lo a testemunhar a força nua desta arte. Reserve a sua mesa e viva na primeira pessoa o melhor espetáculo de flamenco em Madrid, onde a tradição, o rigor técnico e a verdade se demonstram todas as noites no palco, a poucos metros de si.