O Tablao Flamenco 1911 no cinema: sete décadas de história no palco mais fotografado de Madrid

Cena do filme Saltos Altos de Pedro Almodóvar rodada no interior do Tablao Flamenco 1911 Villa Rosa

Há espaços que os realizadores de cinema reconhecem instantaneamente. Não é preciso procurar muito. Entras, olhas para os arcos de inspiração árabe, os azulejos com cenas de toda a Espanha, a madeira escura do palco — e já sabes que isso não se constrói num estúdio. Só existe num sítio. O Tablao Flamenco 1911, na Plaza de Santa Ana número 15, é exactamente isso há mais de um século: um lugar que a câmara não pode inventar.

Um espaço que encanta os realizadores

A decoração do 1911 é única no mundo. Os painéis de azulejos que cobrem a fachada e o interior foram criados no início do século XX pelos melhores ceramistas de Madrid — Antonio Ruiz de Luna e Julián Santacruz. Representam cenas de cidades espanholas, momentos tauromáquicos e estampas flamencas conservadas intactas desde então.

Esse detalhe muda tudo. Um realizador que precisa de ambientar uma cena no Madrid autêntico, no flamenco real ou na noite espanhola de qualquer época tem no 1911 um cenário que nenhuma equipa artística consegue replicar. Não é um palco que imita a história — é a própria história.

E os números confirmam-no: sete produções diferentes em três décadas, com alguns dos realizadores mais importantes do cinema espanhol a escolher este espaço repetidamente.

Filmes e séries rodados no Tablao Flamenco 1911

Tacones Lejanos — Pedro Almodóvar (1991)

É a cena de que toda a gente se lembra. Miguel Bosé, travestido como a sua personagem, tira a luva ao mais puro estilo Gilda sob o olhar de Victoria Abril e Marisa Paredes. Almodóvar escolheu o 1911 — então conhecido como Villa Rosa — para uma das sequências mais icónicas da sua carreira. Os murais de azulejos ao fundo são inconfundíveis. A cena tornou o local parte do imaginário do cinema espanhol dos anos 90.

Por que lhe chamam amor quando querem dizer sexo? — Manuel Gómez Pereira (1993)

O mesmo ano que La Lola, Manuel Gómez Pereira rodou aqui outra cena da sua comédia com Verónica Forqué e Jorge Sanz. Um beijo entre os dois protagonistas com os arcos do tablao ao fundo. Discreta mas presente — Villa Rosa aparece em dois filmes diferentes no mesmo ano, o que diz muito sobre o atractivo do espaço para o cinema dessa época.

La Lola se va a los puertos (1993)

Esse mesmo ano, Rocío Jurado e Paco Rabal habitaram o tablao no remake deste clássico. A combinação de duas lendas do espectáculo espanhol num dos espaços flamencos mais históricos de Madrid produziu uma das cenas mais memoráveis dessa produção.

A rapariga dos teus sonhos — Fernando Trueba (1998)

Fernando Trueba escolheu o 1911 para ambientar uma das cenas desta comédia com Penélope Cruz, Antonio Resines, Rosa María Sardá, Javier Cámara, Santiago Segura e Mandy Patinkin. O espaço encaixava perfeitamente na atmosfera do filme — o Madrid dos anos 40, com a sua mistura de glamour e autenticidade popular. Trueba voltaria ao tablao anos depois.

Ocho apellidos catalanes — Emilio Martínez-Lázaro (2015)

O filme espanhol mais rentável da história até esse momento também passou pelo 1911. O duo formado por Karra Elejalde e Dani Rovira protagonizou aqui uma das cenas mais hilariantes do filme. O tablao forneceu exactamente o que a sequência precisava: um espaço reconhecível, carregado de iconografia andaluza, que o realizador soube usar com humor e precisão.

A Rainha de Espanha — Fernando Trueba (2016)

Trueba voltou. Dezoito anos depois de A rapariga dos teus sonhos, o mesmo realizador escolheu o mesmo espaço para a sequela, desta vez com Penélope Cruz novamente como protagonista a par de um elenco que incluía Antonio Resines, Javier Cámara, Ana Belén e Santiago Segura. A fidelidade de Trueba ao 1911 não é coincidência — quando um realizador volta duas vezes ao mesmo local, é porque esse local faz algo que nenhum outro consegue.

Arde Madrid — Paco León (2018)

A série da Movistar+ sobre a vida de Ava Gardner no Madrid dos anos 60 não podia ignorar o 1911. O tablao foi um dos cenários reais da série — e também o lugar onde Paco León escolheu apresentá-la publicamente. Que o realizador apresentasse o seu projecto aqui não foi coincidência: Villa Rosa fazia parte das noites de Ava Gardner em Madrid, e a série sabia-o.

Por que os realizadores escolhem o 1911

A resposta curta é que não há outro sítio igual. Mas há mais.

A autenticidade é irreproduzível. Os azulejos, os arcos, a madeira do palco — tudo tem mais de cem anos. Nenhuma equipa artística consegue fabricar essa pátina. A câmara nota-o e o espectador também, mesmo que não saiba exactamente porquê.

O espaço fala por si. Um realizador não precisa de carregar a cena de símbolos quando o cenário já os traz incorporados. O 1911 comunica Espanha, flamenco, história, noite madrilena — sem que ninguém precise de o explicar.

A escala é perfeita. Não é um espaço monumental nem intimidante. É íntimo, com exactamente as proporções certas para que a câmara capture as personagens em relação directa com o ambiente. Esse equilíbrio entre espaço e figura é difícil de encontrar.

Um palco histórico que continua vivo

O que torna o 1911 único entre todos os espaços que apareceram no cinema espanhol é que não é um museu. Continua a funcionar. Cada noite, o mesmo palco onde Almodóvar dava indicações a Miguel Bosé acolhe artistas flamencos ao vivo, a poucos metros do público.

Essa continuidade entre história e presente é o que torna uma visita ao 1911 diferente de ver um filme ou visitar um monumento. Aqui a história não está numa vitrina — está a acontecer agora mesmo.

Se quiseres descobrir mais histórias e anedotas sobre o espaço, aqui estão os segredos do tablao. E se quiseres viver a história em primeira pessoa, aqui está o show de flamenco ao vivo.

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