
Programação semanal de Flamenco em Madrid
Programação sujeita a alterações. É possível comprar ingressos futuros mesmo que a programação artística de alguns meses ainda não tenha...
A origem do 1911
O tablao está localizado hoje na Plaza de Santa Ana, número 15, na esquina com as ruas Núñez de Arce e Álvarez Gato — esta última conhecida pelos madrilenhos como “Callejón del Gato”.
Antes, ali havia um antigo moinho de chocolate, mas mais tarde o local abriu como Gran Colmado, um espaço gerido por mestres da tourada: os picadores Farfán e Céntimo e o banderilheiro Alvaradito. Nos primeiros anos, funcionava como uma casa de frituras andaluzas e um bar de tapas e vinhos, servindo delícias aos clientes.
Referência: Fachada do Colmado.
Imagem: mistabernasfavoritas.blogspot.com
“Será en 1918, cuando se reabre completamente restaurado como lo conocemos hoy”
O nascimento do Tablao – 1918
O Gran Colmado mudou de proprietário e foi adquirido por Rafael Marcos Colombí, um empresário valenciano. Durante cerca de um ano e meio, o local funcionou como restaurante sob sua gestão.
Em 1919, passou para as mãos de dois garçons do bar vizinho Viña P, Antonio Torres e Tomás Pajares, que realizaram uma reforma completa.
O novo espaço destacava-se pela sua decoração exuberante: um belo balcão de madeira entalhada, um teto artesonado artístico sustentado por colunas com arcos lobulados pontiagudos, remetendo à Alhambra de Granada, e paredes cobertas por azulejos policromados em estilo árabe-andaluz.
As paredes exibiam mosaicos pintados com cenas de flamenco e tourada, criados pelos melhores ceramistas de Madrid da época: Antonio Ruiz de Luna e Julián Santacruz. Ruiz de Luna foi também o autor de todas as placas de cerâmica com nomes de ruas no centro de Madrid. Graças à bela decoração e à cozinha regional de alta qualidade, o negócio logo se tornou um sucesso.
Referência: Interior do Tablao, Plaza de Santa Ana nº 15, 1940. Diego González Ragel. Arquivo Ragel.
Publicado em: viejo-madrid.
A singularidade do espaço foi completada em 1917 com a fachada exterior criada pelo mestre sevilhano Alfonso Romero Mesa.
Esta impressionante fachada, protegida como património cultural da cidade de Madrid, é composta por painéis e relevos de azulejos cerâmicos que retratam locais icónicos de Espanha, como a Plaza de Colón em Madrid, a Plaza de España de Sevilha, a Alhambra, Córdoba, a Cibeles, o Palácio de Cristal do Retiro, os Jardins de Murillo e Málaga vista do Monte de Sancha.
Acima da entrada principal, também pintado sobre azulejos, aparece o antigo nome do tablao.
Referência: Grupo flamenco no antigo palco nos anos 60
"Assim começou a lenda daquele que se tornaria a Catedral do Flamenco em Madrid."
Nessa época, já havia surgido a figura de Don Antonio Chacón, cantaor de Jerez que representava toda a tradição flamenca dos grandes mestres do século XIX, como Silverio e Enrique “El Mellizo”, mas com uma nova estética, afastando-se da imagem clássica do bandoleiro.
O mestre Chacón transmitia uma imagem culta e elegante, marcada pelo seu refinamento, profundo conhecimento do flamenco e educação requintada.
Don Antonio Chacón possuía uma voz e uma técnica comparáveis às de um tenor lírico. Graças ao seu talento musical e à sua criatividade, desempenhou um papel essencial no desenvolvimento de uma nova forma de interpretar e compreender o flamenco. Com sua arte, aperfeiçoou técnicas já existentes e popularizou estilos como a malagueña, a granaína, os estilos levantinos e as milongas de influência americana.
Em 1921, a sociedade entre Torres e Pajares foi dissolvida, ficando Pajares como único proprietário do estabelecimento. Aproveitando a importância da figura de Chacón, ele lhe ofereceu o espaço e assinou um contrato vitalício que o vinculava ao tablao para sempre.
A contratação do cantaor conhecido como O Rei do Cante Flamenco Andaluz, juntamente com o guitarrista madrilenho Ramón Montoya, atraiu os melhores bailaores, cantaores e guitarristas, seguidos por um público aficionado e de alto poder aquisitivo.
A inauguração foi uma festa organizada pelo Conde de los Andes, grande entusiasta do flamenco, em homenagem a Chacón. Acompanhado por Ramón Montoya na guitarra e com o cantaor Manolo Pavón, Don Antonio apresentou seu vasto repertório diante de uma plateia extremamente distinta. Diz-se que estavam presentes 21 títulos de nobreza e que a Plaza de Santa Ana estava repleta de carruagens com brasões.
Durante essa época, passaram pelo Colmado todos os grandes cantores flamencos do momento: Manuel Escacena, Fernando el Herrero, Pepe de la Matrona, Bernardo el de los Lobitos, La Niña de los Peines, Manuel Torre, Pepe Marchena… e guitarristas como Miguel Borrull, Manolo de Huelva, Pepe de Badajoz, entre outros.
A partir desse momento, o tablao ecoou com os cantes inigualáveis dos maiores intérpretes flamencos e com a maestria dos guitarristas mais virtuosos. Tornou-se um ponto de encontro onde os mestres consagrados dividiam o palco com as novas gerações, abrindo caminho para a chamada Ópera Flamenca…
Assim começou a lenda do que viria a ser conhecido como a Catedral do Flamenco em Madrid.
Referência: Artigo do “deflamenco.com”: HÁ 50 ANOS… Os tablaos históricos de Madrid, que reproduz imagens do artigo de 1963 Madri, Cátedra do Flamenco – Visita sentimental e pitoresca aos tablaos mais famosos da capital, assinado por J.L. Castillo-Puche (Múrcia, 1919 – Madri, 2004).
Publicado em: deflamenco.com
O espaço guarda, entre os ornamentos dos seus tetos trabalhados, nas caves e túneis, milhares de histórias e segredos de uma época em que o flamenco florescia na intimidade — embora fosse malvisto em sociedade. Mas isso fica para um capítulo próprio: Os segredos de Villarosa.
Don Antonio Chacón continuou a reinar no Tablao até à sua morte, em 1929, mas o local permaneceu o coração do flamenco madrileno até 1963, quando fechou portas.
Embora tenha reaberto um ano depois, só nos anos 70 recuperou o brilho de outrora.
Nos anos 80, o espaço reabre como sala de festas e vive os melhores anos da La Movida. Especialmente depois de Pedro Almodóvar, o conhecido realizador espanhol, escolher o Tablao para filmar a famosa cena do seu filme “Tacones Lejanos”, na qual o cantor Miguel Bosé, travestido como a sua personagem, tira a luva ao melhor estilo Gilda, sob o olhar atento das atrizes Victoria Abril e Marisa Paredes.
Neste período, a estética marcante do local passa a fazer parte da iconografia da época. Essa estética foi preservada e continua intacta no tablao.
“A estética chamativa do local passa a fazer parte da iconografia desta época.”
Imagem das filmagens do filme Tacones lejanos. O diretor Pedro Almodóvar dá instruções a Miguel Bosé.
Entre 2002 e 2009, ainda funcionando como sala de festas, o espaço voltou a acolher programação de flamenco três dias por semana.
Até que em 2011, após um século de história, regressa com um objetivo:
Que o Tablao da Plaza Santa Ana voltasse a ser aquilo que é: “O Santuário do Flamenco em Madrid”
O empresário transforma novamente a sala num tablao flamenco exclusivo e acompanha os espetáculos diários de artistas de reconhecido prestígio nacional e internacional com uma boa carta de vinhos e gastronomia espanhola.
Março de 2022. Passaram-se dois anos desde a crise provocada pela pandemia de COVID-19, o confinamento e as restrições. Neste cenário, o Tablao Flamenco 1911 reabre as portas com um nome que faz jus à sua história.
Apoiado pelo mestre Antonio Canales e com mais força do que nunca, o tablao regressa com três espetáculos de flamenco por dia e uma programação única, para recuperar o lugar que merece por direito.
Tablao Flamenco 1911. A Catedral do Flamenco em Madrid
O 1911 oferece 3 espetáculos diários, programação especial e artistas convidados, preservando cada detalhe que tornou este espaço histórico e único, a Catedral do Flamenco em Madrid.
Após mais de 100 anos de história, podemos afirmar que os melhores representantes do canto e da dança passaram pelo palco do Tablao: Antonio “El Chaqueta”, Imperio Argentina, Miguel de Molina, Juanito Valderrama, Antonio Molina, Pastora Imperio, Manolo Caracol, Lola Flores, Antonio Mairena, Pepe Marchena, Paco de Lucía, Juan Varea, Amparo Garrido, Carmen Amaya…
A lista é interminável e incomparável — e continuará a crescer nesta nova etapa.